Conforme explicado em postagem recente, o escritor Marçal Aquino opta pelo modelo work in progress na escrita de novelas e romances, o que poderia à primeira vista sugerir um possível desconhecimento desse autor em "como" fazer uso do outro modelo, ou seja, do planejamento.
Mas isso seria um engano porque Marçal Aquino é bastante conhecido como roteirista, tanto para filmes normais de tela grande quanto para seriados da Rede Globo de Televisão e, portanto, inevitavelmente o conhece. E bem. Quer a prova? Basta acessar o link aí embaixo e assistir a um vídeo de apenas três minutos, porém, bastante revelador PORQUE É NESTE MESMO SISTEMA EM QUE SÃO PLANEJADOS HOJE A MAIOR PARTE DOS ROMANCES CONHECIDOS COMO BEST SELLERS:
http://www.youtube.com/watch?v=se0iGuJ_NYw
Primeiramente, convém esclarecer que, diferentemente do que o roteirista novato possa pensar, não são os filmes que, nos dias de hoje, vêm a influenciar novas estruturas romanescas, mas, desde o início da história do cinema, a literatura é quem tem influenciado a sétima arte. Portanto, desde as primeiras propostas estéticas de um filme, ou uma simples tomada de cena, é este quem segue, na sua sintaxe narrativa, regras similares à criação literária. Quanto a esse tema, não me estenderei, por existirem vários e bons livros sobre o assunto.
Somente cabe aqui avisar, neste blog, é que, a partir dos Estados Unidos, onde encontramos poderosa indústria cinematográfica, descobriu-se rapidamente que são vultosos os valores pagos por uma boa história de cunho cinematográfico. Portanto, por essa afinidade estrutural entre romance e cinema, começaram os escritores a pensar o romance como uma sequência de cenas, prontíssimo para ser reescrito (retextualizado) na forma de roteiro, já tendo sua curva dramática previamente desenhada para o cinema.
Quer um exemplo? Passe em uma livraria, leia vários dos primeiros capítulos dos chamados best sellers e veja se boa parte desses romances começam ou não com uma "cena de ação". Tal fato é motivado pela necessidade do filme em prender a atenção do espectador desde a cena inicial; enquanto que, no romance, as primeira páginas apresentavam-se normalmente como descrição (apresentação de tempo e espaço). Aos poucos, as duas estruturas vão se aproximando.
Daí, talvez seja conveniente lembrar ao nosso leitor da distinção entre literatura ou não literatura (também chamada de paraliteratura); definições e termos que, inevitavelmente, são aceitos por uns enquanto renegados por outros, de acordo com a formação acadêmica e filosófica daquele que as observa. Do meu lado, opto em servir-me deste momento para expor o assunto e não defender este ou aquele modelo, pois cada ser humano age por diferentes motivações.
Falo isso porque, a meu ver, entre o literato engajado e o mundo administrado deve se interpor sempre o caráter subversivo. Literatura é subversão, guerrilha, nas quais o aspecto econômico não pode se sobrepor ao artístico.
Para finalizar, indico aos interessados dois livros essenciais para o estudo de roteiro: Da criação ao roteiro, de Doc Comparato - que, depois de longo tempo longe das prateleiras das livrarias, foi reeditado em versão atualizada - e Manual do roteiro, de Syd Field.
A partir deles, para aqueles que preferirem, pode-se pensar a estruturação de romances em linha comercial, ou seja, os chamados best sellers.
Espero que apreciem as informações de hoje, e até nosso próximo encontro.
domingo, 15 de janeiro de 2012
quinta-feira, 12 de janeiro de 2012
Afinal, quem se suicidou?
"As autoridades belgas revisaram ontem o número de mortes, inicialmente seis, para quatro, já considerando a mulher encontrada na casa do atirador - que se suicidou após a ação."
Releio o período da notícia por mais de uma vez, e continuo na dúvida: "afinal, quem se suicidou após a ação: a mulher ou o atirador?".
À primeira vista, foi "a mulher encontrada na casa do atirador" quem se suicidou. Porém, por uma questão de coerência textual, se houve um atirador que praticou inúmeros assassinatos, nada mais lógico do que a mulher estar entre o número das seis mortes citadas, e o atirador se suicidado.
Tal problema é acarretado pelo fato da palavra "que", por tratar-se, em nosso exemplo, de um pronome relativo, o que significa gramaticalmente a retomada de um termo antecedente, dando sempre início a uma oração adjetiva: "que se suicidou após a ação". Então, mais uma vez, qual o termo antecedente retomado pela oração, a mulher ou o atirador? Como somos induzidos pelo texto, o substantivo "mulher" acaba assumindo a posição desse referente, por ser núcleo de um complemento verbal.
E por que não pensamos no suicídio como sendo do atirador? Porque no termo "casa do atirador" temos "casa" como núcleo e "do atirador" um aposto com função adjetiva, isto é, um aposto que especifica o substantivo "casa".
Tais problemas com a escrita podem ser facilmente evitados com a utilização de "o qual", e variantes (que também são pronomes relativos). Assim:
[...] "já considerando a mulher encontrada na casa do atirador - a qual se suicidou após a ação."
[...] "já considerando a mulher encontrada na casa do atirador - o qual se suicidou após a ação."
Pronto, agora, a cena do crime fala. Portanto, em caso similares lembre-se: o qual, os quais, a qual, os quais, podem solucionar com facilidade sinistros casos de assassinatos e de suicídios.
quarta-feira, 11 de janeiro de 2012
Escrever um romance: planejamento ou "work in progress"?
Expandindo um pouco mais os conceitos comentados anteriormente, o escritor iniciante pode realizar um planejamento chegando à sutileza de definir até a quantidade de capítulos e o conteúdo desses. Aviso que tal procedimento não acarreta prejuízo na criatividade, por três motivos:
1) Raramente esse detalhamento chega a tal sutileza de definir seu pleno conteúdo, o que seria praticamente a escrita do romance em si;
2) Independentemente do planejamento, a escrita de cada capítulo, em si mesma, ganha vida própria e um livro, até sua finalização, de uma forma ou de outra, sofre um número incontável de modificações;
3) Para realizar tal planejamento, por si só, o autor será obrigado a usar o máximo de sua criatividade, esteja certo disso.
Também, todo trabalho, ainda que no modelo work in progress, exige ao autor, de certo modo, um planejamento ou, se preferir, uma maturação de ideias, cuja elaboração este acaba realizando, de uma forma ou de outra, nos interregnos da escrita (assim como existem infinitos níveis de planejamento, do mais grosseiro ao mais apurado).
Vou exemplificar o assunto com dois consagrados autores, ambos de meu agrado: Marçal Aquino e Mílton Hatoum.
Exemplificando o modelo "pôr a mochila nas costas e cair no mundo", cujo conhecimento obtive em conversa pessoal com este, encontrei uma postagem em que Marçal Aquino declara sua preferência pelo modelo não planejado (aos 2:54 do vídeo):
http://www.youtube.com/watch?v=rMhXMBf0eFg
Exemplificando o modelo "planejamento", temos o caso de Mílton Hatoum. Notar como o autor, apesar do "pensar antes", deixa boa parte do conteúdo em aberto, para preenchimento. Em outro vídeo, afirma que a melhor memória para a escrita é aquela memória "um tanto difusa", porque fica melhor para a criação, isto é, preencher com a imaginação esses apagamentos; e não a memória mais exata, que seria determinada, fixa, "dura". Também, repare na questão da disciplina do escritor com a escrita. Obs.: já entra no vídeo tocando no assunto de nosso interesse:
http://www.youtube.com/watch?v=g9EwHRY9pm4
Para demonstrar esse modelo citado (planejamento) quando usado com maior rigor, posto um vídeo que o detalha, e bem, em apenas dois minutos. Informo estar em língua inglesa, porém, bastante didático, de fácil compreensão.
http://www.youtube.com/watch?v=6K_1Vh0GT_U&feature=fvst
Espero que, assim, o assunto fique mais claro ao nosso visitante. Assistam aos vídeos e bom proveito. Porém, não pensem estar o assunto finalizado; breve, a ele voltaremos.
Abraço aos amigos.
1) Raramente esse detalhamento chega a tal sutileza de definir seu pleno conteúdo, o que seria praticamente a escrita do romance em si;
2) Independentemente do planejamento, a escrita de cada capítulo, em si mesma, ganha vida própria e um livro, até sua finalização, de uma forma ou de outra, sofre um número incontável de modificações;
3) Para realizar tal planejamento, por si só, o autor será obrigado a usar o máximo de sua criatividade, esteja certo disso.
Também, todo trabalho, ainda que no modelo work in progress, exige ao autor, de certo modo, um planejamento ou, se preferir, uma maturação de ideias, cuja elaboração este acaba realizando, de uma forma ou de outra, nos interregnos da escrita (assim como existem infinitos níveis de planejamento, do mais grosseiro ao mais apurado).
Vou exemplificar o assunto com dois consagrados autores, ambos de meu agrado: Marçal Aquino e Mílton Hatoum.
Exemplificando o modelo "pôr a mochila nas costas e cair no mundo", cujo conhecimento obtive em conversa pessoal com este, encontrei uma postagem em que Marçal Aquino declara sua preferência pelo modelo não planejado (aos 2:54 do vídeo):
http://www.youtube.com/watch?v=rMhXMBf0eFg
Exemplificando o modelo "planejamento", temos o caso de Mílton Hatoum. Notar como o autor, apesar do "pensar antes", deixa boa parte do conteúdo em aberto, para preenchimento. Em outro vídeo, afirma que a melhor memória para a escrita é aquela memória "um tanto difusa", porque fica melhor para a criação, isto é, preencher com a imaginação esses apagamentos; e não a memória mais exata, que seria determinada, fixa, "dura". Também, repare na questão da disciplina do escritor com a escrita. Obs.: já entra no vídeo tocando no assunto de nosso interesse:
http://www.youtube.com/watch?v=g9EwHRY9pm4
Para demonstrar esse modelo citado (planejamento) quando usado com maior rigor, posto um vídeo que o detalha, e bem, em apenas dois minutos. Informo estar em língua inglesa, porém, bastante didático, de fácil compreensão.
http://www.youtube.com/watch?v=6K_1Vh0GT_U&feature=fvst
Espero que, assim, o assunto fique mais claro ao nosso visitante. Assistam aos vídeos e bom proveito. Porém, não pensem estar o assunto finalizado; breve, a ele voltaremos.
Abraço aos amigos.
terça-feira, 10 de janeiro de 2012
Cuidado com o significado das palavras
Há cerca de um mês, os aeroviários decidiram entrar em greve. Para tanto, interromperam suas atividades e, portando extensa faixa, apresentaram-se diante do público, posando para os jornalistas que faziam a cobertura do evento. Na faixa, lia-se o seguinte: "PARALIZAÇÃO PELOS BAIXOS SALÁRIOS". E a foto foi estampada em vários veículos de comunicação.
A frase escolhida por tão nobres servidores acarreta dois sérios problemas: um ortográfico; outro, de significado. Primeiramente, a mensagem deveria ter como grafia a palavra "paralisação" com "s" e não com "z" - descuido que, de certo modo, causa estranheza partindo de um grupo de trabalhadores de bom nível intelectual. O outro problema, porém, apresenta-se ainda mais estranho, ora um tanto dúbio ora um tanto irônico.
A preposição "por" não somente estabelece eventuais relação de causa, mas também a de ser a favor. Observemos o exemplo:
Se preciso, ela morreria pelos filhos.
Ele torce pelo Corinthians. (e não para o Corinthians)
Portanto, ela morreria a fim de salvar os filhos, a favor dos filhos. Ele torce a favor do Corinthians (por isso não se deve usar o "para" nesses casos). Logo, ao se ler a referida faixa, deixa-se entender que os servidores estão em greve "a favor dos baixos salários" e não "contra os baixos salários", isto é, pedindo a redução desses, o que se trata de, no mínimo, um caso de incoerência textual, ou de desequilíbrio psicológico.
Certo está o jornalista que, em caso também recente, estampou assim a manchete de seu jornal:
"MÉDICOS DO SUS PARALISADOS POR MELHORES SALÁRIOS".
segunda-feira, 9 de janeiro de 2012
Os caminhos para um romance
É comum os escritores declararem publicamente a forma como escreveram seu romance, até porque, essencialmente, temos apenas duas delas: planejamento ou work in progress.
Planejar significa "decidir antes", portanto, nesta primeira e mais tradicional forma de escrita temos os detalhes da narrativa pensados antecipadamente, o autor idealiza seu começo, meio e fim; sua estruturação em capítulos; os espaços onde esses se passam (cidade, bairro, ambiente etc.); além da essência de cada um dos capítulos, dando ao todo do livro determinada feição. Concomitantemente com essa elaboração, os personagens vão sendo construídos sendo comum a escrita de seus perfis e/ou biografias. Existem alguns modelos para facilitar essa elaboração, aos quais se dá o nome de "ficha de personagem".
É uma tarefa bastante demorada, porém, tem a vantagem de, depois de pronta, facilitar (e muito) o trabalho do escritor que, após tantas pesquisas e maturação das ideias, parte para o texto minimizando o risco do chamado "branco" ou "pânico diante da folha a ser escrita".
O modelo work in progress, cujo nome tomei emprestado da área teatral, é aquele em que o autor vai para a folha de papel sem um planejamento antecipado, geralmente motivado apenas por uma ideia, ou pelo forte desejo de escrever. Muitas vezes, conforme declarações várias, trata-se de uma escrita que vai tomando corpo, alongando-se e, repentinamente, percebe o autor de que "pode sair dali um romance". É uma forma que se assemelha à leitura, partindo-se do princípio de que o leitor "viaja" nas páginas do texto sendo surpreendido pela narrativa; desta mesma forma, o autor opta pelo prazer do desconhecido. Portanto, vai tateando com seus personagens, deixando-se levar pela narrativa e pelas suas consequências naturais, ainda que, eventualmente, encontre-se em situações narrativas de difícil solução.
No meu ponto de vista, o modelo work in progress não é vantajoso porque, além do risco de "como" solucionar os inevitáveis nós narrativos, e necessidade de reescrita diante dessas complicações, perde-se uma das principais características que um bom texto deve conter: a essencialidade, ou seja, deve o autor escrever apenas o necessário para se contar aquela história, assunto sobre o qual falarei num outro dia.
A primeira dessas práticas é muito utilizada em países estrangeiros, principalmente de língua inglesa. A quase totalidade de autores de best-sellers assim o fazem. A segunda, para minha própria surpresa, é muito utilizada aqui no Brasil, de acordo com as várias palestras que já presenciei em feiras de livros, diria até que equilibradamente.
Traçando uma analogia, imagine que você decidi sair de uma cidade do Sudeste do Brasil e, de férias, dirigir-se de carro até um município litorâneo do Nordeste. Ou você planeja a viagem, o roteiro, o que se mostra mais econômico e proveitoso, ou joga a mochila no porta-malas e "põe o pé na estrada", ao sabor das aventuras, não sabendo ao certo nem como nem quando chegará lá. Porém, de uma maneira ou de outra, o que vale mesmo é o prazer da caminhada.
Aos meus leitores romancistas, recomendo: escolha entre esses dois caminhos e... boa viagem!
Planejar significa "decidir antes", portanto, nesta primeira e mais tradicional forma de escrita temos os detalhes da narrativa pensados antecipadamente, o autor idealiza seu começo, meio e fim; sua estruturação em capítulos; os espaços onde esses se passam (cidade, bairro, ambiente etc.); além da essência de cada um dos capítulos, dando ao todo do livro determinada feição. Concomitantemente com essa elaboração, os personagens vão sendo construídos sendo comum a escrita de seus perfis e/ou biografias. Existem alguns modelos para facilitar essa elaboração, aos quais se dá o nome de "ficha de personagem".
É uma tarefa bastante demorada, porém, tem a vantagem de, depois de pronta, facilitar (e muito) o trabalho do escritor que, após tantas pesquisas e maturação das ideias, parte para o texto minimizando o risco do chamado "branco" ou "pânico diante da folha a ser escrita".
O modelo work in progress, cujo nome tomei emprestado da área teatral, é aquele em que o autor vai para a folha de papel sem um planejamento antecipado, geralmente motivado apenas por uma ideia, ou pelo forte desejo de escrever. Muitas vezes, conforme declarações várias, trata-se de uma escrita que vai tomando corpo, alongando-se e, repentinamente, percebe o autor de que "pode sair dali um romance". É uma forma que se assemelha à leitura, partindo-se do princípio de que o leitor "viaja" nas páginas do texto sendo surpreendido pela narrativa; desta mesma forma, o autor opta pelo prazer do desconhecido. Portanto, vai tateando com seus personagens, deixando-se levar pela narrativa e pelas suas consequências naturais, ainda que, eventualmente, encontre-se em situações narrativas de difícil solução.
No meu ponto de vista, o modelo work in progress não é vantajoso porque, além do risco de "como" solucionar os inevitáveis nós narrativos, e necessidade de reescrita diante dessas complicações, perde-se uma das principais características que um bom texto deve conter: a essencialidade, ou seja, deve o autor escrever apenas o necessário para se contar aquela história, assunto sobre o qual falarei num outro dia.
A primeira dessas práticas é muito utilizada em países estrangeiros, principalmente de língua inglesa. A quase totalidade de autores de best-sellers assim o fazem. A segunda, para minha própria surpresa, é muito utilizada aqui no Brasil, de acordo com as várias palestras que já presenciei em feiras de livros, diria até que equilibradamente.
Traçando uma analogia, imagine que você decidi sair de uma cidade do Sudeste do Brasil e, de férias, dirigir-se de carro até um município litorâneo do Nordeste. Ou você planeja a viagem, o roteiro, o que se mostra mais econômico e proveitoso, ou joga a mochila no porta-malas e "põe o pé na estrada", ao sabor das aventuras, não sabendo ao certo nem como nem quando chegará lá. Porém, de uma maneira ou de outra, o que vale mesmo é o prazer da caminhada.
Aos meus leitores romancistas, recomendo: escolha entre esses dois caminhos e... boa viagem!
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